Irmgard Löwen

Der lange Weg ihrer Selbstfindung

     Ich hatte von ihr gehört, ich wusste, sie ist die Adoptivtochter vom Pianisten Reimer, den ich als kleiner Junge oft in der Kirche erlebt hatte, ein geachteter Mann unter den Mennoniten Curitibas.

    Irmgard aber war mir kaum bekannt, denn sie verhielt sich immer sehr unauffällig, zurückhaltend. Warum wohl? 

    Als ich später in der Brüdergemeinde Boqueirão diente, kam sie einmal in mein Sprechzimmer. Den Anlass habe ich schon vergessen, es handelte sich aber um eine Schwierigkeit in ihrem Leben. Ich versuchte, sie zu weiteren Gesprächen zu gewinnen, aber sie verhielt sich weiterhin verdeckt, ohne eine Annäherung zu erlauben.

     Jahre später und durch manches Leid gereift, ergriff sie selber die Initiative, Klarheit über ihre Vergangenheit zu gewinnen. Ich freue mich, die von ihr geschriebenen Aufzeichnungen nun zu veröffentlichen.

Udo Siemens

     

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      Irmgard é meu nome original, todavia fui registrada como Imgart. Nome um tanto complicado que acabou exigindo um apelido no intuito de simplificar: Emi, como sou chamada por muitos até hoje.

     Nasci dia 21 de junho de 1964 na cidade de Campo Alegre-SC, filha de Hellmuth Marcos Reimar Dudy e Jenny Fiedler Dudy. Nesse tempo, frequentei a Escola de Educação Lebon Regis e eu congregava com minha família na Comunidade Evangélica Luterana de Campo Alegre, onde fui batizada.      

      Em 1972, com oito anos, fui adotada pelo casal Waldemiro Reimer (exímio pianista) e Catarina Goossen Reimer (professora da Escola de Corte e Costura Flórida). Sendo registrada, então, como Imgart Dudy Reimer. Eles residiam no bairro Rebouças, em Curitiba.

     No início, frequentei a Capela dos Irmãos Menonitas (Colégio Erasto Gaertner) e, depois, a Primeira Igreja Evangélica Irmãos Menonitas do Boqueirão – onde conheci meu marido. Fui batizada nessa igreja em 1983. Como meu pai tocava piano em diversas igrejas eu sempre o acompanhava, às vezes tocando violino também. Meus estudos e formação foram no Colégio Estadual Dr. Xavier da Silva e, depois, Colégio da Polícia Militar do Paraná. Fui integrante da Ordem dos Músicos do Brasil, exercendo atividade musical na Orquestra Sinfônica do Paraná, executando 2º violino.

      Casei com Roberto Löwen em dezembro de 1985, tornando-me Imgart Reimer Löwen, suprimindo o sobrenome Dudy. Nos conhecemos em um encontro de jovens, numa partida de vôlei, na Primeira Igreja Evangélica Irmãos Menonitas do Boqueirão.        Congregamos nessa igreja até os dias atuais.Tenho dois filhos: em maio de 1987, nasceu Tiago Löwen e em janeiro de 1989, Daniel Löwen. Daniel é casado com Gisele Ana Rezler Pianaro Löwen e Tiago, com Angeli Karine Friesen Löwen, com a qual tem dois filhos: Christopher Löwen (5 anos) e Thalita Löwen (1 ano e 5 meses).

     A família que me adotou, me criou com muito amor, educação e estudo. Já tinham uma filha, adotada também, três anos mais velha. Ela pedia uma irmãzinha de presente até que me adotaram. Crescemos e sempre fizemos tudo juntas, mesmo que muitas vezes não dava certo, pois ela gostava muito de sair, principalmente ao cinema, enquanto que eu gostava mais de ficar em casa. Dessa forma ela também não podia sair e não gostava nada disso.

     Eu sempre soube que tinha uma família com vários irmãos, pois fui adotada com 8 anos de idade e por isso tinha na memória algumas lembranças. Inclusive o nome de todos: Ilse, Marcos, Ingrit, Ivone, Iris, Irmgard (eu) e Ilhane. Todos com a mesma inicial do nome, exceto o único irmão. Uma grande família, muito pobre, sobrevivendo sob más condições, dependendo de familiares que ajudavam no que podiam, principalmente com alimentação. Vizinhos também se encarregavam de prestar ajuda.

     Nesse cenário fui “adotada” por um casal de Curitiba – mas meus pais não sabiam que aquele processo se tratava de uma adoção formal. Eles mal sabiam escrever seus próprios nomes. Achavam que era um documento exigido por uma escola em Curitiba, na qual eu estudaria.

     Todos irmãos saíram muito cedo de casa para ficar com outras famílias a fim de trabalhar e estudar. Mas sempre retornavam para casa no final do ano ou no período de férias para visitar os pais e demais irmãos.

     Alguns também passaram um período em São Paulo com uma tia, Tante Hedwig Dudy Müller(93 anos), irmã do meu pai. Ela dedicou a vida no confeito de bolachas, negócio que filhos e netos deram continuidade criando a Café &Delikatessen Oma Hedy, em São Paulo. Ela ainda continua na cozinha!

       Quando, recém havia saído de casa, dois irmãos foram me visitar em Curitiba para ver como eu estava. Eu, com 8 anos, não entendia bem o que estava acontecendo. “Tenho outra família”, pensava. Mas não sentia proximidade com meus irmãos, pois não convivia mais com eles.

     Mais tarde, soube que meus pais legítimos faleceram: meu pai (57) de câncer e minha mãe (65) em decorrência da diabetes. Até meus 12 anos, eu ia uma vez ao ano visitá-los, conforme exigência do juizado. Que efeito isso tinha sobre mim? Soube por uma prima que quando as férias chegavam eu ficava sempre doente, toda vez que eu tinha de ir pra lá. Como era criança, não compreendia bem isso nem entendia a razão de tanta ansiedade que essa visita causava em mim.

     Um dia, já estava casada, recebi uma carta de um advogado de Joinville informando que havia uma partilha de herança para receber, já que meus pais haviam falecido. Respondi a carta, por intermédio do meu advogado, alegando que eu não fazia parte dessa partilha, como fui orientada a comunicar. Mas isto aumentou ainda mais a minha angústia: qual é a minha relação com esta família?

    Os anos foram passando e a dúvida na mente permanecia. Todos meus irmãos, que também foram morar na casa de outros, voltavam para casa quando adultos, mas nenhum foi adotado. Por que a minha história é diferente? Por que eu não tinha também voltado pra casa de meus pais? Nunca tive forças emocionais para falar sobre o assunto.

      Até que, muitos anos mais tarde, por meio do meu filho, que esteve por dois anos doente com depressão, eu tomei coragem. Neste período tive que ficar forte para ajudá-lo e muitas vezes percebi que também precisava de ajuda.

     Assim percebi que teria mais força emocional para enfrentar a situação e também enfrentar a minha dúvida que cada vez vinha mais forte na mente. Tinha muita vontade de procurar alguém ou fazer algo para descobrir o que tinha acontecido na minha infância.

    Meus filhos sempre souberam que fui adotada, mas nunca com muitos detalhes, pois eu também não sabia muito o que dizer. Acho que eles percebiam que este era um problema que não estava resolvido para mim e por isso tinha tanta relutância em falar do meu passado.

     Assim comecei a ficar forte e a conversar mais a respeito do assunto com meu marido. No carnaval do ano de 2017, resolvi visitar a cidade onde nasci e convivi com minha família até meus 8 anos: Campo Alegre-SC. Já tinha passado por ali algumas vezes, mas rapidamente, pois ainda não estava pronta para enfrentar os meus medos. Passei 3 dias na cidade com meu marido. Ali fomos passeando e caminhando por todas as ruas. Em uma e outra casa parávamos para fazer algumas perguntas: “Conhecem família Dudy?”. Fui informada que mais à frente havia uma senhora que poderia saber alguma coisa, pois é antiga na cidade. Assim fomos ajuntando as informações e tentando recompor o quebra-cabeça da minha origem.

     Caminhando mais um pouco, avistamos uma descida e lembrei que eu tinha andado ali em meus tempos de criança: era a rua da minha casa! Descobri também a igreja que eu tinha frequentado e a escola em que estudei.

     Mais tarde a minha irmã me contou que eu gostava de passear no hospital, pois ganhava lá caixinhas de remédios vazias para brincar de casinha. Era uma alegria!

     Sábado pela manhã passamos em Rio Bonito, perguntando de casa em casa se conheciam os Dudy, minha família de origem. Fomos ao cemitério para ver nas lápides os nomes das famílias e integrantes. Ao lado de uma igreja encontrei uma senhora de idade e perguntei por nomes a ela. Ela me indicou que duas das minhas irmãs participavam na Igreja Luterana, em Joinville.

     Sábado à tarde fomos a Joinville. A igreja tinha muitos idosos e todos falavam alemão também. Ás seis da tarde tinha acabado uma reunião de senhoras e a líder se chamava Ilse. O nome me deixou em alerta, mas ela aparentava ter 80 anos, deduzi que minha irmã teria algo em torno de 60 anos. Chegamos até o zelador da igreja que nos acolheu e aconselhou para que retornássemos no domingo de manhã antes do culto, pois encontraríamos pessoas mais idosas que teriam lembranças que poderiam nos ajudar. No outro dia, às nove horas, estávamos na igreja. À medida que os membros entravam no templo, o recepcionista perguntava se conheciam Ilse e Marcos Dudy. Um casal ouviu a nossa conversa e para nossa surpresa o homem respondeu que sim, que conhece Marcos Dudy. Ele disse: “Meus pais criaram os dois irmãos (Ilse e Marcos) quando bem novinhos a fim de ajudar no começo da vida”.

    Antes de começar o culto, o pastor anotou nossos nomes e nos apresentou, pedindo que se alguém soubesse de algo ou tivesse alguma informação sobre minha família, que nos procurasse ao final do culto. Aquele casal veio até nós novamente e disse que tinha o número do meu irmão Marcos. Que emoção! Para meu espanto, este senhor ligou para o Marcos, ali mesmo, e disse: “Marcos, tua irmã Irmgard está aqui no pátio da igreja Luterana a tua espera”.

     Será que finalmente eu tinha encontrado uma conexão familiar com o meu passado? Meu coração bateu mais forte. Não demorou muito e lá veio o Marcos, pouco mais gordo do que imaginava e com cabelos bem brancos. Mas o rosto, o jeito e o abraço de irmão a gente não se engana.

     Logo depois, ele nos levou até sua casa, onde a esposa nos recebeu com muito amor e ainda preparou um almoço delicioso. Meu irmão ligou para São Paulo, onde minha irmã mais nova, Ilhane, mora e perguntou: “Adivinha quem está aqui com a gente na mesa do almoço???”. Ao que ela respondeu na hora: “não acredito!!! É a Irmgard???”. Passaram o telefone para mim e mal começamos a conversar e nós duas chorávamos incontrolavelmente. Isso foi em 27 de maio de 2018. Depois de almoçar, começamos a ver fotos, certidões e documentos e rever histórias e lembranças.

     Não demorou muito e todos já tinham meu Whatsapp. E então passei a receber mensagens e mais mensagens:

- “Sou a Ingrit, sua irmã. Quanta saudade! Não vejo a hora de te ver. Abraços. Fala como você está, minha irmã!”

“Estou muito feliz por ter falado com você, faz 43 anos que nos separamos”.

“Seja bem-vinda ao nosso meio, estamos todos ansiosos!”

    Nosso primeiro encontro com irmãos foi no dia 08 de julho de 2018. Meu irmão saiu de Joinville, parou em Curitiba e peguei carona com ele até São Paulo. Fomos até a casa da minha tia, Tante Hedy. Sentadinha fazendo crochê, 90 anos, pudemos ficar um pouco juntas e conversar.

      À noite fomos para casa da minha irmã Ilhane. Lá estavam me esperando. Foi uma emoção muito grande: abraços apertados e muito choro. Juntos comemos uma pizza contando e relembrando fatos engraçados, mas também histórias tristes. Passamos a noite entre sorrisos, risos e lágrimas. Chegada a hora de dormir, cada um tinha o seu cantinho: seja no chão, no sofá ou onde tivesse lugar. O inusitado foi que eu acabei dormindo com minha irmã Ilhane, pois seu marido trabalha durante a noite. Foi uma grande surpresa para mim esse gesto! Fiquei em São Paulo 3 dias. Foram muitas conversas e muitas dúvidas esclarecidas.

      Mais adiante, tivemos outro encontro em julho de 2018 na casa do meu irmão Marcos, em Joinville. Em outubro de 2018 fui a São Paulo no aniversário surpresa da minha irmã Ilse. Lá encontrei minhas três irmãs (Ilhane, Ilse, Ingrit). Sempre uma alegria na chegada e tristeza na hora de ir embora. Afinal, passamos tão pouco tempo da vida juntos. Nesse mesmo mês, no dia 6, recebemos convite para participar de um encontro da família Fiedler (sobrenome da minha mãe) em São Bento-SC. O próximo encontro foi na cidade de Corupá-SC no dia 09 de março de 2019. Lá conheci outros primos e familiares. 

     Em 12 de janeiro de 2019 conseguimos reunir todos irmãos, junto com filhos e netos. Nesse dia encontrei minha outra irmã (Ivone) que ainda não havia conhecido pessoalmente. Soube que estava muito deprimida. Teve uma vida muito difícil com o marido, mais 4 filhos. Duas semanas depois recebi a triste notícia que ela tinha falecido. No dia seguinte eu estava em Joinville, onde foi seu velório.

     Em junho de 2019 foi meu primeiro aniversário com todos os irmãos. Infelizmente, sem a Ivone. Pudemos conversar bastante.  

    Ir atrás dos meus irmãos e reconhecer a minha história foi algo muito difícil e que levou anos, décadas. Hoje, proporciona uma alegria imensa, ao mesmo tempo que o passado e as lembranças trazem à memória fatos que trouxeram um alívio para minha vida, esclarecendo e tirando um peso das minhas costas.

    Sou muito grata, primeiramente, a Deus pela oportunidade e privilégio de ter reencontrado minha família.

    Ao meu marido, Roberto Löwen, que sempre me instigou a procurar minha família. Foi enfático e muitas vezes insistente. Relutei muito. Ele foi o grande incentivador e responsável por eu ter chegado até aqui.

    Agradeço, também, ao Pr. Udo Siemens que sempre esteve ao meu lado me encorajando, me ouvindo, orientando e aconselhando.

    Se Deus permitir, haverá muitos outros. Valeu a pena sair à busca da história da minha origem!