Uma vida tão errada!

Passou dos sessenta anos a senhora sentada à minha frente: “Pastor, a minha foi um caos. Fiz tudo o que era possível para ela dar errado. Claro, sem saber.”

“Vamos tentar entender,” respondo. “O que deu errado em sua vida?”

“Tudo, pastor, tudo. Casei errado, vivi errado no casamento, o pai de minha filha nos abandonou, eu continuei fazendo coisas erradas.”

“Por exemplo ...”

“Pro senhor ter uma ideia, já com mais de 40 era pra eu ter juízo. Por ser bem relacionada com meus vizinhos me ofereceram revender drogas. E eu topei. Fiz dinheiro. Em breve vi a polícia começar a rondar minha casa, também os bandidos. Aí fugi pro exterior.”

“E sua filha?”

“Essa saiu de casa com 14. Foi cair na vida e nas drogas. Mas também com o exemplo de mãe que eu lhe dei! Ah se eu pudesse voltar atrás!”

“Como foi sua vida no exterior?”

“Difícil, muito difícil aquela vida. Trabalhava feito cão. Mandava o dinheiro pro Brasil, pra meu irmão, planejando fazer um pé de meia.”

“Mas hoje você é outra pessoa!”

“A graça de Deus nos alcança até quando tudo está errado.”

“Quem sabe ela nos alcança mais facilmente quando tudo está errado. Enquanto nós nos achamos donos de nossos caminhos não queremos saber de Deus”, completei.

“Pois é, pastor. Eu estava lá, longe de minha terra, sem saber o que fazer da minha vida, estava triste e perdida quando uma colega de trabalho me convidou pra ir numa reunião. Sabe como é que é: no exterior a gente se sente muito só. Lá qualquer brasileiro é irmão. Quando a colega me convidou, eu não tinha nada pra fazer. Eu a acompanhei.”

“E aí caiu a ficha?”

“Pastor do céu, que ficha o que?! Caíram raios e trovões. Nunca tinha visto coisa assim. A pastora começou a falar e eu desmontei. Era tudo pra mim. Fiquei sem defesa. Caí no chão e chorei, chorei amargamente por toda vida errada que eu tinha levado.”

“O Espírito Santo é poderoso!”

“Põe poderoso nisso, pastor! Virei outra pessoa. Quando voltei pro Brasil ninguém me reconheceu. Foi transformação total. Fiquei outra depois daquela noite, pode? Uma pregação só virar a gente de ponta cabeça?! Outra pastora profetizou sobre mim e disse: você vai voltar pro Brasil, irmã, em breve. E vai voltar tão pobre como veio. Não entendi.”

“Você tinha enviado uma grana pra cá, não é?”

“Pois é. Mas ela teve razão. Quando cheguei aqui, achando que eu tinha um pé de meia, vi que não tinha nada. Meu irmão, pro qual eu tinha mandado o dinheiro, gastou tudo.”

“O que te trouxe pro meu gabinete? Por que você me procurou? O que não está bem?”

“É o relacionamento com a minha filha, sangue meu. É tão difícil!”

“Onde ela está?”

“Ela mora longe. Nos telefonamos de vez em quando, mas nossa relação não tem profundidade. Eu entendo, pastor. Eu fui uma mãe muito ruim. Dei mau exemplo, só pensava em mim e não nela. Isso cortou nosso afeto. E aí ela também tomou caminhos errados e hoje não conseguimos reatar.”

“Ela continua no mundo?”

“Sim. Só me telefona quando precisa de dinheiro.”

“E você dá o que ela pede?”

“Pastor, é minha filha ...”

“Você tem a consciência pesada em relação a ela e não ousa recusar!?”

“Nunca olhei as coisas desse jeito.”

“Eu poderia ter razão? Você dá dinheiro, sabendo que está favorecendo a vida errada de sua filha, mas não ousa dizer não para ela porque está com a consciência pesada pela vida errada que a filha aprendeu com você?!”

“Puxa, pastor, estou há anos na igreja, escutei muitas pregações, mas essa ficha nunca caiu. É isso. Confesso que é isso! É verdade! Estou tentando pagar em prestações o mal que fiz à minha filha com o meu exemplo negativo.”

“A sua coragem de enxergar a verdade me anima, irmã.”

“E adianta eu tentar me continuar enganando? Foi por isso que eu vim, pastor. Eu sei, eu preciso escutar umas verdades.”

“Me diz uma coisa: o que aconteceria se você explicasse para ela que você agora entende que errou no passado, enquanto ela como criança e adolescente convivia com você e pedisse perdão?”

“Eu fiz isso tão logo que retornei do exterior, mas ela não deu a mínima para minhas palavras.”

“O que vai acontecer se você parar de ajudar?”

“Não sei. O senhor pode me ajudar a entender isso?”

“Sua filha vai aplaudir quando você parar de ajudar?”

“Com certeza não. Vai ficar uma fera. Vai me castigar não me telefonando mais.”

“Sua filha vai falar bem de você para sua neta e os demais parentes?”

“É verdade! Ela vai fazer minha caveira perante meus irmãos.”

“Qual é a vantagem então de você parar de ‘comprar’ a simpatia de sua filha?”

“Porque como cristãos não podemos ‘comprar’ o bem-querer de outros, não é?”

“Exato. Ser sal e luz significa fazer o que é correto. Só é cristão o meu testemunho e eu posso esperar a benção de Deus sobre meu modo de agir se eu fizer as coisas conforme a vontade de Deus e não conforme os impulsos de minhas emoções.”

“E o Espírito de Deus vai transformar o coração de minha filha?”

“Deus não arromba portas. Jesus testemunhou para o Jovem Rico, mas este preferiu continuar sua velha vida. O meu testemunho não garante o resultado na vida do outro, mas facilita a ação do Espírito de Deus sobre o outro.”

“Devo me preparar então para um tempo de solidão se a minha filha e minha neta virarem as costas pra mim?”

“E valia a pena a companhia delas e as palavras que eram amáveis somente enquanto você passasse para elas uma parte de seu apertado salário mínimo?

“É verdade! Mas é difícil, pastor, mudar um jeito que a gente vem levando há tantos anos na relação com seus familiares!”

“Sim, é difícil e dolorido. Mas o aconselhamento é cristão apenas enquanto eu desafiar você a ajustar sua vida à perspectiva cristã.”

“É isso que eu quero.”

Udo Siemens