Vó, me empresta um dinheiro?

Que constrangimento, pastor, mas eu não agüento mais. Eu preciso falar com alguém”, começa a velhinha. Acho que posso chamá-la assim. Bem conservada, ainda forte, mas já um tanto encurvada. Parece passar dos 70.

Que bom que a senhora veio, irmã! Será um prazer tentar ajudá-la”, respondo eu, sem saber para qual encrenca eu estava dando boas-vindas. “Mas que mal pode assaltar uma senhora nesta idade?”, pensei. “Deve ser um dodói inofensivo!” Eu não imaginava que a coisa podia complicar.

Então me conta: o que a trouxe a meu gabinete?” continuei.

Ah, pastor. São as minhas dívidas.

Dívidas?” reagi incrédulo. “Mas com toda essa idade, e a senhora ainda não aprendeu a lidar com dinheiro?

Pastor, não seja duro comigo. Eu cuido muito bem dos meus gastos. A minha feirinha não custa quase nada. Eu vivo de ar puro, água limpa e umas verduras. O aipim eu planto no fundo da casa.

É o que eu imaginava. Não entendo como é que a senhora pode acabar endividada?!

É o coração, pastor. Não foi nenhuma gastança, não.

Continuo a não entender. O que é que o coração tem a ver com sua dívida?

Não me apresse, pastor! Eu demoro um pouco pra explicar. É que é complicado mesmo. Pensei e revirei muitas vezes a coisa.

Como dar conta da dívida? tentei encurtar a questão.

Não. Como eu iria contar isso pro senhor. Sabe, eu não sou membra da sua igreja. Mas sempre quando passo por esta cidade, eu gosto de visitar a sua igreja. Mas eu fiquei pensando muito, porque eu não queria apresentar o problema de qualquer jeito pro senhor.

Entendo! Mas estamos já conversando um tempo e eu ainda não sei como combinar sua dívida com seu coração.

Eu vou me explicar melhor. Sabe, pastor, eu tenho um neto.” E agora ela faz uma pausa. A sua boca parece que pronunciou uma palavra bem especial. “Pastor, o meu neto representa muito pra mim.

Entendo.” Tento não interromper para ver se chegamos logo ao nó da questão.

Sabe, pastor, quando ele precisa de alguma coisa, ele me procura.

Ah!

Como é difícil explicar isso!”, ela interrompe a si mesma e estica minha dificuldade em entender o que está acontecendo.

Sabe, pastor, meu neto, sabe pastor, meu neto por vezes não consegue cumprir seus compromissos financeiros ... e então ele me procura...

Para pedir dinheiro”, tento encurtar a explicação.

Sim, sabe, ele tem compromissos, ele me explicou isso, ele tem muita coisa pra pagar e por vezes não dá conta.

E aí ele pede que a avó dele financie suas despesas.

Mas como eu poderia deixar o doce do meu coração na mão, não é, pastor?

Mas para que ele precisa de tanto dinheiro? Ele não trabalha?

Ele trabalha, pastor, mas o senhor sabe como os custos são altos, não é?

Eu comecei a perceber que tem dente de coelho aí e cutuquei:

Me diz uma coisa: o seu neto toma drogas?

Ah, pastor, esta é a parte mais difícil! Ele me prometeu que vai parar com isso.

Quantas vezes?

O que?

Quantas vezes ele lhe prometeu que vai parar com as drogas?

Eu não falo toda vez disso, não é, pastor? Senão ele não vem mais. Ele é a luz do meu coração. Desde pequenininho.

Tem coisa muita errada aqui, irmã!

Eu sei, pastor. Eu sei.

E para que a senhora me procurou?

Eu queria ver com o senhor se o senhor sabe como eu poderia arranjar cinco mil reais. Aí eu liquidava tudo.

Suas dívidas?

É que eu acabei entrando no cheque especial.

Isto é grave. A senhora precisa urgentemente fazer um empréstimo pra saldar essa dívida. Existe um empréstimo especial para aposentado que daí é descontado na folha de pagamento.

Ela se cala por um instante e eu não consigo entender a relutância dela em continuar a conversa. “É que, pastor ... eu já fiz esse empréstimo há dois anos e não consigo outro agora.

Deixe-me entender: a senhora fez um empréstimo há dois anos para dar dinheiro pra seu neto e agora entrou no cheque especial porque continuou dando dinheiro pro consumo de drogas de seu neto?

Não, pastor, não. Não é pra drogas. Meu neto me jura que ele não usa meu dinheiro pra comprar drogas.

Quem sabe! As drogas ele compra com o dinheiro dele e vem pedir o dinheiro pra pagar as outras contas. Que diferença que faz?

Ela fica calada. Parece que não sabe como responder.

Eu resolvo endurecer: “A irmã percebe que está ajudando o seu neto a se afundar cada vez mais nas drogas? Que a senhora está ajudando seu neto para que ele se vicie cada vez mais? Fazendo isto a senhora está sendo instrumento de Deus ou do capeta?

Ah, pastor, eu só quero o bem de meu neto. Eu o ajudo em nome de Jesus.

Mas como? Se a senhora financia as drogas dele?

Silêncio.

Eu tenho uma solução. A senhora precisa abrir o jogo com o seu filho e contar para ele a verdade. Ele precisa saber do caos financeiro em que a senhora caiu e, quem sabe, ajudar a controlar suas finanças.

Deus me livre, pastor. Aí eu perco a minha autonomia.” A seguir ela se levanta e diz “Muito obrigado, pastor!

E se vai.